quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Roménia - Vlad Dracul Roadtrip 09/2016

Início de 2016 recebi um convite de casamento a realizar na Roménia, do meu grande amigo André que tocava bateria em Never Fail. Estive umas horas em Bucareste há uns anos quando fui para a Turquia (podem ler sobre isso aqui) e como até gostei da parte velha da cidade decidi explorar o país um bocadinho para ver o que tinha para me oferecer, já que não conhecia ninguém que lá tivesse ido passar férias.
Que país! Montanhas, castelos, uma das mais bonitas estradas do mundo, desfiladeiros, ursos, o Drácula, bem... É melhor relaxarem, leiam este relato e aproveitem para ver o preço dos voos para a Roménia e passem as próximas férias lá.



Combinei com o meu amigo Sebastian, agarrei na Raquel e lá fomos nós em direcção ao desconhecido. Andei semanas a ver sites como o Wikitravel/Wikivoyage e qualquer blog ou fórum que falasse sobre a Roménia para tirar ideias de sítios a visitar. Olhando para o Google Maps fiz um roteiro que fosse possível fazer em 4 dias e fui procurar um sítio para alugar um carro. Encontrei a Cars4Rent e paguei 96€ por 4 dias em que estava incluído 20€ de seguro contra todos por um Dacia Logan com uns anos. Perfeito! Ainda me disseram que podia mandar o carro contra uma árvore que não pagava mais nada, o seguro cobria. Fiquei tentado, sou sincero!

Apanhamos o voo no sábado dia 10/09 á noite e chegamos á Roménia já era bem tarde. Fomos para casa do André onde ficamos duas noites pois no dia a seguir íamos passar o dia com eles e com a respectiva família. Faltava uma semana para o casamento e era uma pequena celebração do acontecimento. Tivemos um domingo super agradável numa zona mais rural fora de Bucareste, voltamos para jantar e dar uma voltinha a pé. A cidade tem uma arquitectura que mistura o neoclássico e algum art-déco, em que se nota também muita influência comunista na construção e disposição dos edifícios devido á reconstrução da cidade entre as duas grandes guerras.

Dormimos bem e apanhamos um Uber para o aeroporto. Andar de Uber em Bucareste é brutal, uma viagem de 20km, 43 minutos custa 7.5€. Portanto, se estiverem na cidade e quiserem ir para qualquer lado, apanhem um Uber! Bem mais simples e eficaz.


Fomos ao aeroporto para ir buscar o carro e ir ter com o Sebastian que chegava nesse momento. Pusemos as mochilas no carro e siga caminho, destino: Castelo do Drácula, o original. Apanhamos a auto-estrada  e em Pitesti saímos para a Transfagarasan, considerada pelo Top Gear uma das melhores estradas do mundo para se conduzir. A paisagem é verdejante e com montanhas em toda a volta, apesar de o melhor ainda estar para vir, a paisagem no início desta viagem já era muito boa. Estacionei junto á entrada do castelo do Drácula mas realmente já passava das 17h e já estava a fechar, não valia a pena subir. Em relação a este castelo, este é o verdadeiro castelo onde Vlad Tepes (Vlad the Impaler ou Drácula) viveu, e não o de Bran. Nos tours que se fazem pela Roménia e se forem a Bran, dizem que o castelo de Bran é o castelo do Drácula, mas é apenas porque foi onde Bram Stocker se baseou e inspirou para escrever o livro Drácula.
 Ao lado havia uma pensão/hotel bastante engraçada e fomos perguntar o preço para um quarto triplo e quando esperava que me dissessem que ia ser um balúrdio visto estar numa zona turística, eis que fiquei surpreendido quando o valor dava 25 euros no total para 3 pessoas. Óbvio que foi logo aceite. A comida era estranha mas foi bastante barato, não sei precisar o valor mas foi á volta dos 4 ou 5 euros por pessoa e tinha sobremesas e bebidas e tudo o que tínhamos direito.




Neste final de dia aconteceu um episódio caricato. Demos uma volta a pé pela estrada, para descer junto ao rio que havia um pouco mais baixo que a estrada, com mesas e bancos para piqueniques, quando na estrada apareceu uma matilha de cães que não sendo agressivos, não se calavam e quase andavam á bulha uns com os outros. Todos os sites que falavam sobre a Roménia diziam para ter cuidado com este tipo de cães pois podiam tornar-se violentos, então estava assim meio apreensivo mas enquanto eles estavam a ladrar uns para os outros mandei um berro para se calarem e não é que resultou? A partir daí vieram atrás de nós como se nada fosse. Houve uma altura até que eles desceram para junto do rio e ao irmos embora junto á estrada estavam dois cães a olhar para nós lá de baixo e eu disse: bora! E não é que subiram o monte de pedra e lama e vieram connosco? Surreal! Só isto valeu aquele final de dia, senti-me um pequeno Cesar Milan!




Terça-feira, dia 13/09 acordamos cedo para sermos os primeiros a entrar no castelo e subir aqueles 1400 degraus da morte e qual era a nossa companhia? Isso mesmo, os cães do dia anterior! Iam sempre junto a nós como se nos estivessem a proteger. O castelo está em ruínas e tem uns quantos bonecos empalados da parte de fora que dá um ambiente bué engraçado á cena toda. A vista é do outro mundo e estar ali em cima, a ouvir o vento a bater nas árvores e a imaginar o que terá sido a guerra do Príncipe da Valáquia contra os invasores Turcos é bastante especial.
1400 degraus depois e estávamos cá em baixo prontos para arrancar. Dissemos adeus aos canitos e seguimos viagem rumo ao topo da montanha com paisagens deslumbrantes mas nada me preparou para o que vinha ao passar o túnel Balea-Capra. Um lago no topo da montanha que reflectia tudo o que estava por cima com nuvens coladas a nós e rodeados de verde e mais verde, era algo possível apenas no nosso imaginário, nunca pensei que a Roménia fosse assim! Foi aí também que descobrimos o Trdelnik, um doce Romeno em que a massa é enrolada num espeto de madeira para assar e depois polvilhada com açúcar e canela ou nozes, que vício! Almoçamos no local e bebemos um cafezinho com vista para o lago, explorar o sítio a pé e seguimos caminho bem devagar para ver a tal estrada maravilha a serpentear montanha fora num cenário digno apenas de filme.




Fomos montanha abaixo e passamos pela Roménia rural, nada de auto-estradas, apenas estradas nacionais e bombas de gasolina no meio do nada. Nesta altura devem estar a perguntar-se: então mas a Roménia é tourist-friendly? Totally! Mesmo nos sítios mais remotos onde ninguém falava outra língua que não Romeno era tudo muito simpático e sempre a tentarem ajudar com o que pudessem e muito prestáveis. Portanto mesmo quando ninguém percebia nada, os gestos ajudam e também uma app chamada: Google Translate. Fazem download da língua previamente e depois com a ajuda da câmera em cima do texto a app faz a tradução na hora em cima do que está escrito! Acreditem que dá mesmo muito jeito!




Já chegamos tarde ao nosso próximo destino, a condução fazia-se bem e a paisagem ajudava então chegamos de noite ao Desfiladeiro de Bicaz e mesmo de noite deu para ver a magnitude do local e não queria acreditar que estava perante algo ainda mais bonito do que o Desfiladeiro de Toudgha como descrevi no post anterior sobre a minha viagem a Marrocos (podem ler sobre isso aqui). Conduzi durante km á procura de um sítio para dormir, o que estava difícil naquela zona, mas lá demos com uma espécie de parque de campismo com bungalows e um senhor que falava um francês compreensível o suficiente para nos dizer que um bungalow para 3 pessoas também era cerca de 20 ou 25€. Fomos jantar qualquer coisa no único sítio que estava aberto aquela hora, já passava das 23h, um bocado chunga e a comida era manhosa mas pelo preço, tudo de bom! Acho que nem 5€/pessoa gastamos!

 




O dia seguinte começou bastante cedo e fomos logo em direcção ao desfiladeiro, fizemos a estrada do desfiladeiro umas 3 ou 4 vezes. Que sítio brutal, montanhas enormes a ladear a estrada com muito verde á mistura. Roménia, assim não vai dar, estás a deixar-me mal habituado! Exploramos um bocado do local e seguimos caminho em direcção a Brasov. Almoçamos na cidade de  Baile Tusnad, numa pizzaria junto ao rio com umas pizzas mesmo muito boas e com as montanhas verdejantes em frente.




Passamos a cidade de Brasov e fomos directos para o castelo de Bran. De repente reparamos que deixamos a Roménia esquecida e rural e estamos no meio do turismo desenfreado. Multidões de pessoas a subir e a descer a falarem várias línguas diferentes. Ainda encontramos o André e a família dele que por coincidência também foram ao castelo naquele dia, compramos os bilhetes e fomos dar uma volta no interior, ver as exposições e ler os textos que estavam nas várias salas com um pouco da história, não só do castelo ou da zona, mas também sobre Vlad Tepes ou outras personagens importantes da história Romena.



Quando saímos do castelo no final do dia fomos lanchar e procurei um hotel no Booking.com e não é que achamos um mesmo á saída da cidade em que cada quarto custava 12€? Marcamos dois quartos duplos claro, livin large! O hotel era o Optim e era bastante pitoresco, e mais uma vez e para não destoar, tinha uma vista para as montanhas que era um abuso. As varandas em madeira serviram para um final de tarde tranquilizante a ver a paisagem. Fomos jantar perto do castelo, sendo um sítio turístico claro que já não era muito barato mas mesmo assim não foi nada de mais e comemos muito bem.

Estava super ansioso para o dia seguinte, tivemos de acordar cedo para ir ao Santuário dos Ursos que ficava a poucos km mas aceitam poucas pessoas por dia, então para não perdermos o lugar fomos quase uma hora antes de abrir para o local e entramos no primeiro ou segundo grupo. Fiquei super feliz por saber que existem sítios como este, pequenos santuários que ajudam ursos que estavam em cativeiro e que foram maltratados e em que muitos deles ficaram com mazelas psicológicas e não podem de todo ser reintroduzidos na vida selvagem. Não só ursos mas tinha um ou outro animal diferente, mas era maioritariamente para ursos, com condições brutais. Não é de todo um zoo, não é de todo um espectáculo. É apenas um santuário enorme que ajuda estes animais que tanto precisavam de voltar a ser felizes e para sobreviver não só conta com a ajuda do estado como de pessoas como nós que vão visitar o local e paga o bilhete e compra souvenirs para eles poderem ter boas condições de vida. Se conseguirem ver os ursos perfeito, se por acaso eles tiverem todos escondidos, não há ursos para ninguém. Mas normalmente eles andam pelo local e podemos vê-los a tomar banho e a descansar ao sol e é maravilhoso ver estes animais majestosos tão perto de nós com apenas uma rede á nossa frente. Temos os guias que explicam tudo sobre o local e respondem a todas as perguntas e falam um pouco sobre cada urso. Saí do local de coração cheio devo dizê-lo.

Fomos almoçar a Brasov, talvez a segunda cidade mais conhecida da Roménia a seguir a Bucareste, que tem a famosa Igreja Negra, a principal igreja gótica do país e toda uma arquitectura típica da zona da Transilvânia. Demos uma volta pelo centro e seguimos para o sítio que eu tanto queria ir: Canionul Sapte Scari, ou em português: o Desfiladeiro das Sete Escadas. Now, this is what I live for! Estacionas o carro e andas cerca de uma hora a uma hora e meia no meio da floresta até um desfiladeiro com um curso de água e escadas em ferro para subir, e só estando lá para ver! Que vistas, que caminhada brutal, sempre a subir junto ao pequeno curso de água no meio da montanha e entre pedras enormes. Para completar este dia, ao sair do desfiladeiro reparamos que havia uma barraquinha a alugar arnês para usar nas ziplines que iam desde aquele ponto até á entrada do parque. WOW! Claro que não pensamos duas vezes! Foi mais de uma hora a descer de zipline em zipline, de árvore em árvore. Que loucura (link para o video da zipline aqui no meu IG)! Ao chegar á entrada do parque estavam os dois monitores que recebem o arnês de volta a olhar para as árvores intrigados e por piada perguntei o que se passava ao que eles respondem na boa e relaxados: ah, nada de mais, é apenas um urso que anda por ali, ontem passou aqui por volta desta hora a correr. Pah oh bacano, COMO ASSIM UM URSO? Infelizmente não o vimos, ou felizmente... Nem sei! Os encontros com ursos castanhos podem ser problemáticos embora eles tenham medo de barulho e regra geral não atacam pessoas, mas nunca se sabe! Digamos que fomos para o carro sempre a olhar por cima do ombro não fossemos ver o tal urso a correr na nossa direcção, mas não aconteceu.

Seguimos em direcção a Bucareste, nas calmas. Tínhamos noite marcada no Ibis pelo André que nos ofereceu duas noites devido ao casamento dele então podíamos ir com tempo. Ainda demos uma volta a pé pela cidade, junto ao Parlamento, fomos á Old Town e voltamos. 

No dia seguinte fui deixar o Sebastian ao aeroporto e entregar o carro. Fomos para o centro para conhecer a zona velha da cidade que é bastante agradável com igrejas bonitas e menções a Vlad Tepes em todo o lado. Fomos cedo para o hotel para descansar e ir jantar pois á noite havia uma pequena festa com o André visto o casamento ser no dia a seguir. E bom, o resto é história, um belo casamento Romeno na Nova Igreja de Saint Spyridon. Nunca tinha visto uma cerimónia ortodoxa e foi uma boa surpresa. 



No domingo de manhã era hora de ir embora, apanhamos o avião para Portugal com uma escala em Roma de 6 horas e decidimos ir até ao centro dar uma volta. Não vimos nada em particular, basicamente andamos a pé as quase 4 horas que tínhamos disponíveis e passamos pelos pontos principais da cidade, fomos de Termini para o Coliseu passando pela Fontada di Trevi e Praça de Veneza. Apanhar o metro no Coliseu, comer pizza á fatia e sair no Vaticano e ir em direcção ao Largo da Torre Argentina passando pelo Castel Sant'Angelo, Piazza Navona e Panteão. Entramos num Uber (bem caro, não aconselho) e fomos de volta para o aeroporto. Hora de voltar a casa.


O que tiro desta viagem? A vontade imensa de voltar a viajar mas para sítios sem referência nenhuma pois pelos vistos são os que mais surpresas nos trazem. Pensei que não ia ver paisagens e estradas e sítios mais brutais que Marrocos e afinal a Roménia enganou-me redondamente e só vi um bocadinho ali no centro. Quero voltar, descobri que existe uma mina de sal tão grande que tem uma ferris wheel lá dentro, portanto a Roménia não para de me surpreender. E a paragem em Roma apesar de rápida foi muito relaxante, mesmo caminhando quase 4 horas de mochila às costas. Há um dizer que é: não voltes aos sítios onde já foste feliz. Bem, eu voltei e vim de lá mais feliz que nunca. Não liguem a tudo o que ouvem, sejam dizeres sejam certas dicas sobre os sítios que querem ou têm curiosidade em visitar. ;)




Stay Fresh.